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2 de maio de 2010

Bilhete para o Amigo Ausente

Lembrar teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.

Natália Correia, poema
Giorgione "Fiesta Campestre"

31 de março de 2010

Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda

Maria Teresa Horta

11 de agosto de 2009

Voz da saudade

Por detrás dos olhos
Tantas palavras em profundos silêncios
E o aconchego de uma lúcida solidão
Na penumbra, onde o pensamento é teu
A procura do toque, o roçar íntimo do desejo
Na imaginação, o corpo reconhece-te a voz
E o ritmo das tuas pálpebras em clara nudez
Quando as estrelas mergulham em teus olhos
E fazes meus lábios cúmplices do teu beijo

Entre o sentir e o olhar, o abismo da falta
Perscrutam-me as mãos da inquietação
Tentando soletrar meus indecifráveis fonemas
Apenas o murmúrio triunfante das lembranças
Beija o ardor da tua existência velada
Os dedos da nostalgia, hábeis guias
Tateiam e espraiam-se nos véus do horizonte
Em que tua imagem encurta o infinito
Deito-me comigo, adormecendo-me
Cubro-me com a nudez da saudade
Que abraça o teu corpo ao meu


Fernanda Guimarães

15 de abril de 2009

Words and Music


No outro dia, numa aula de "Baroque studies" o meu professor disse uma coisa que jamais esquecerei, falando sobre um tema que estava a ser executado na aula da compositora Francesca Caccini (filha de Giulio Caccini).



"The words are the soul and the music is the body".




É dificil separar uma da outra, e uma não é mais importante que a outra. Coexistem.


7 de janeiro de 2009

Escrito numa ânfora grega


E o teu amor que espalha a tinta
Na minha tela da cor da sede
Paisagem que a tua paixão pinta
Para eu pendurar numa parede.

Candidatura a bem-amado
Das minhas núpcias de aracnídeo,
Contigo a ver-me de um telhado,
Altura própria para um suicídio.

Mas prometida a um olhar marujo
Na lenda de um Fáon que nunca chega,
Quanto mais me amas, mais eu te fujo.
Falta cumprir a sina grega.




""
Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999

17 de setembro de 2008

Second Home

Irei a Évora descobrir o branco

A ogiva o arco a rosácea a nave

A praça como pátio

O pátio como praça

Nada destrói a intimidade

Da sua humana geometria.

Irei a Évora para reencontrar

A perdida harmonia.






Poema: Manuel Alegre
Foto: P. Penincheiro

28 de junho de 2008



Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,

A banalidade devorante das caras de toda a gente!

Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!

(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)

Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,

Estômago da alma alvorotado de eu ser...






Pessoa - Álvaro de Campos

8 de março de 2008




Vivo sem tempo, num tempo sem vida.
Vivo sem vida, numa vida sem tempo.

Sinto o tempo passar incógnito
Pelos dias. Passam árvores, montanhas,
Voo pelos campos neste trem...
Vertiginoso, numa náusea de vómito.

Não existe uma calma ermida,
Algures no alto de umas penhas,
Onde o devir pare num doce bem?
Onde o veloz tormento
Deste viver em frémito, indómito,
Se acalme e morra, sem lamento?

Cova doce, espero-te, vem...







Leite de Faria (1957 ?)
Pintura de Dewing



29 de outubro de 2007


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


Sophia de Mello Breyner

16 de outubro de 2007

Proposta de Concerto para hoje


CICLO DE MÚSICA E
POESIA SATÍRICA EM PORTUGAL
dias 16, 18, 23 e 25 de Outubro de 2007 - Palácio Fronteira

- 16 de Outubro de 2007 (terça-feira)

18h30 – RECITAL DE CANTO E ALAÚDE “De um Tempo Antigo para o Moderno”

POR VERENA WACHTER BARROSO E ANDRÉ BARROSO

Cancioneiros Ibéricos

Porque me não vês Joana

Passame por Dios barquero

Venid a sospirar

Não tragais borzeguis pretos

Senhora del mundo

LaVilla voy

Rodrigo Martinez

Airs de Cours

A. BOESSET – N´espérez plus mes yeux

A. BOESSET – Divine Amarillis

G. BATAILLE – Qui veut chasser une migrain

E. MOULINIÉ – Paisible e ténébreuse nuit

Lute Songs

J. DOWLAND – Awake, sweet love...

T. CAMPIAN – My love hath vow´d

T. CAMPIAN – The cypress curtain of the night

J. DOWLAND – I saw my lady weep

J. DOWLAND – Flow my tears

J. DOWLAND – Can she excuse my wrongs?

Música Italiana

G. CACCINI – Amor ch `attendi

G. CACCINI – O Piante, o selve ombrose

Anónimo – L `amor, dona, chio te porto

G. CACCINI – Amarilli, mia bella

A. M. ABBATINI – Quanto é bello il moi diletto

C. MONTEVERDI – Con che soavità...

D. MAZZOCCHI – Più non sia, che m´innamori

20h00/21h30 – JANTAR

21h30 – RECITAL DE POESIA – SÉC. XVI A XVIII

Apresentação e Comentários: Vanda Anastácio.

Leitura: Antónia Brandão, Fernando Mascarenhas, Maria Adelaide Hidalgo, Paulo Godinho e Pedro Sena-lino.

Caso V.Exa. pretenda trazer os livros para acompanhar as leituras, segue em anexo o alinhamento das poesias que vão ser lidas na sessão, bem como a indicação dos respectivos livros.



22 de setembro de 2007

Aqui..




Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui sou livre eu - eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não p'lo meu rumor que só perdi,
Não p'los incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.



Aqui - Sophia de Mello Breyner

23 de agosto de 2007

Da minha lente..


A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...

A nossa casa - Florbela Espanca
Foto ("vila viçosa") - Helena Raposo

28 de julho de 2007


Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...
Que importa o mundo seus orgulhos vãos?...

O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!...



" O nosso mundo" Florbela Espanca

Kiss 1992 - Neil Grayson

29 de junho de 2007

Da minha lente..


mote seu

Se Helena apartar
do campo seus olhos,
nascerão abrolhos.

voltas

A verdura amena,
gados que paceis,
sabei que a deveis
aos olhos d' Helena.
Os ventos serena,
faz flores d' abrolhos
o ar de seus olhos.
Faz serras floridas,
faz claras as fontes...
Se isto faz nos montes,
que fará nas vidas?

Trá-las suspendidas,
como ervas em molhos,
na luz de seus olhos.
Os corações prende
com graça inumana;
de cada pestana
uma alma lhe pende.
Amor se lhe rende
e, posto em giolhos,
pasma nos seus olhos.



Luiz Vaz de Camões

photo by ME


27 de junho de 2007


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?


(Retrato - Cecília Meireles)
Foto by Amanda Com

21 de junho de 2007


La guitarra
hace llorar a los sueños.
El sollozo de las almas
perdidas
se escapa por su boca redonda.
Y como la tarántula,
teje una gran estrella
para cazar suspiros,
que flotan en su negro
aljibe de madera.


(Las seis cuerdas - F. Garcia Lorca)

20 de junho de 2007


– "Sonham comigo tuas mãos esguias,
As tuas mãos esguias no regaço,
Minhas saudades são as pedrarias,
Estrelas dos teus dedos no espaço (...)"




(Orpheu - Armando Cortes-Rodrigues)
(imagem da net)

2 de junho de 2007



Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa




Sophia de Mello Breyner Andersen


20 de maio de 2007

Orpheus with his lute..






Orpheus with his lute made trees,
And the mountain tops that freeze
Bow themselves when he did sing.
To his music plants and flow'r
Ever sprung as sun and show'rs
There had made a lasting spring.

To his music plants and flow'rs
Ever sprung as sun and show'rs
There had made a lasting spring.

Ev'ry thing that heard him play
Ev'n the billows of the sea,
Hung their heads and then lay by,
Hung their heads and then lay by,

In sweet music is such art,
Killing care and grief of heart,
In sweet music is such art,
Killing care and grief of heart,
Fall asleep, or hearing die,
Fall asleep, or hearing die..


William Shakespeare